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Entrevista: ALEXANDRE CUNHA

Entrevista concedida por Alexandre Cunha a Adalberto Brajatschek em dezembro/2009.

Alexandre Cunha

Como grande representante da música brasileira, o baterista Alexandre Cunha levou a nossa arte para o outro lado do mundo. Desta vez foi no Festival de Jazz de Shanghai, na China. Com extremo bom gosto, o seu quarteto esbanjou musicalidade e botou os chineses pra dançar!

Confira o nosso bate papo com o Alexandre sobre essa experiência.

Site Batera: Gostaríamos que você falasse um pouco sobre o grupo. Você já toca com esse grupo há algum tempo ou ele foi montado somente para este Festival? Quem são os integrantes? Porque você os escolheu?

Alexandre Cunha: Lancei meu primeiro CD em 2005, só com a galera top de São Paulo e Rio como Arthur Maia, Marcelo Martins, Dominguinhos, Serginho Carvalho, músicos que pela distância e compromissos não poderiam fazer parte da banda. Apenas o grande guitarrista daqui (Campinas) Fernando Baeta que gravou no CD e tinha me dado duas composições lindas estava na banda. No show de lançamento, além de Arthur Maia, Fernando Baeta, Erik Escobar (teclado) veio um integrante da Mantiqueira, mas como veio sem estudar, não foi muito bem, querendo ler tudo na hora, sendo que as músicas eram difíceis e algumas partituras tinha que transpor de tom. De tanto me falarem convidei o saxofonista Marcelo Valezi, muito indicado por vários músicos diferentes, e com as mesmas partituras (que não estavam muito organizadas) leu tudo na hora e se encaixou perfeitamente na banda. Olhando hoje, acho que ele é um músico ideal para o que eu busco na música em termos de improvisação e bom gosto. Neste mesmo ano, testando vários baixistas, acabei chamando Bruno Coppini, que acompanhou vários artistas e gravou o Ídolos. Bruno tem um grande refinamento e bom gosto e para música instrumental é um grande sideman, deixando todo mundo seguro pra tocar. Depois da primeira gig, já pensei: é ele o cara. Na mesma época precisei um dia de tecladista e a grande pianista Janice Pezoa (já tocamos juntos em vários trabalhos) foi chamada só para substituir o Erik Escobar (que estava fazendo na época). Teve o primeiro, o segundo… aí lembro que ela perguntou: “quando é o próximo?” Aí também pensei: “já é da banda”. Então estamos nesta formação desde 2006, com muita afinidade musical e também pessoal. Isso dá uma cara de banda mesmo e não de um artista acompanhado por músicos. Atualmente por problemas de agenda Fernando Baeta tocou muito pouco com a gente e tenho feito mais trabalho em quarteto, com a mesma formação que fomos para a China: Eu, Marcelo Valezi, Janice Pezoa e Bruno Coppini.

 

Site Batera: Como ocorreu o convite para o show na China?

Alexandre Cunha: Há algum tempo tenho enviado materiais para festivais em todo mundo. Consegui um “presskit” bem bacana, com matérias e resenhas no exterior de lugares que mandei meus CDs. Então com esse material legal vou procurando na Internet, mandando e-mails e enviando depois por correio para quem retorna. Puro trabalho de produtor mesmo. Quase não enviei o material para China, achando meio improvável, mas ainda bem que o fiz (risos). Depois de um mês e meio recebi um e-mail deles dizendo que adoraram o material e que queriam convidar-nos para o Festival, assim começamos a discutir cachês e produção para irmos e, graças s Deus, deu tudo certo, Foi uma grande realização de um sonho.

 

Site Batera: Como foi a aceitação do público? Me falaram que vocês colocaram os chineses para dançar!

Alexandre Cunha: Foi muito legal! Como era um festival de jazz, o público ficava todo sentado assistindo e aplaudindo os shows muito educadamente como em uma grande audição. Na última música que tocamos, como era uma gafieira, pedi pra eles “quem souber pode levantar e dançar” arrisquei! No começo algumas pessoas levantaram, quando chegou o final estava todo mundo de pé, numa maior muvuca, dançando daquele jeito deles (risos). Foi um Grand finale!

 

Site Batera: Com quem vocês dividiram o palco?

Alexandre Cunha: Foram no total 15 grupos. O grande destaque foi para o Incógnito, banda mundialmente conhecida. Adoramos assistir o show como tietes. No nosso dia tocou a cantora holandesa Laura Figy muito conhecida e respeitada na Europa. As outras bandas eram Japonesas, Chinesas e de músicos Americanos que moravam lá.  Ah, tinha um gaitista Belga muito legal também.

 

Site Batera: O que achou da estrutura do evento? Há grupos interessantes na Ásia?

Alexandre Cunha: Foi tudo ótimo, o parque era extremamente lindo! Foi feito em um local do tamanho de um campo de futebol, com um grande palco, boa iluminação e som. Eles pecaram em alguns aspectos: tinham vários roadies, mas falavam só Chinês. Como iriam ajudar? A passagem de som foi muito estressante, pois tinha que ser rápida, daí não conseguimos passar o piano acústico (pois o monitor dava sempre microfonia). E o pior foi quando acabou a energia elétrica do palco no meio de uma música minha. Foi bem frustrante, deu uma esfriada no show. Quando a energia voltou ,continuamos na mesma música só que o teclado voltou coma a polaridade do pedal invertida e a Janice não conseguia tocar, aí paramos no meio da música de novo e correram uns 10 chineses até ela (risos). Mas até eles entenderem o que estava acontecendo… Mas depois disso o show esquentou e ficamos bem mais à vontade.

 

Site Batera: O que você traz de experiência com uma apresentação importante como essa?

Alexandre Cunha: Muita coisa! A primeira é que a música brasileira fascina muito em qualquer lugar do mundo. Foi bem diferente, pois música instrumental aqui é feita em palcos pequenos, no máximo em teatros. Foi uma experiência nova ter tocado música instrumental num palco com aquelas dimensões. Bom, preciso melhorar meu inglês (risos). ‘Deu pro gasto’, mas se você quer falar umas coisas a mais no show, e olha que eu gosto! aí da uma travada. É isso que eu quero como objetivo maior pra minha vida, tocar em grandes festivais e mostrar a música brasileira ao redor do mundo.

 

Site Batera: Há previsão para outros shows no exterior?

Alexandre Cunha: Bom este ano já mandei material para uns 30 festivais acho, a concorrência é muito grande, pois é uma concorrência mundial. Alguns sites que olho tem Chick Corea, Yellow Jackets, Richard Bonna, então já viu! Mas vou continuar tentando…

 

Site Batera: Aqui no Brasil, onde o grupo se apresenta?

Alexandre Cunha: Em vários lugares. Ano passado tive também um projeto cultural no qual fiz 20 shows pelo interior de São Paulo, tendo como convidado especial Arthur Maia. Abrimos vários espaços culturais para este tipo de música. Tocamos também em SESCs e Teatros de Prefeituras, etc.

 

Site Batera: Você já morou na Europa. Muitos dizem que tudo ‘lá fora’ é mais fácil. Qual a sua opinião sobre isso?

Alexandre Cunha: Depende muito. Músico sempre tem que se virar em qualquer lugar, tem que estar pronto pra qualquer situação, resolver o problema de quem esta te contratando, e tem também a sorte de fazer os contatos certos de estar no lugar certo. Não é porque você vai pra Europa e EUA que você vai se dar bem. Mas tem as facilidades de conseguir um instrumento bom com muito menos trabalho, ser um pouco mais valorizado, ter audições como acontece nos EUA para entrar numa banda e não simplesmente quem indica, etc. Mas como disse, você tem que estar preparado para estas situações. Conheço várias pessoas que foram para o exterior e não se deram bem.

 

Site Batera: Qual a sua visão da música instrumental no Brasil?

Alexandre Cunha: Bom, acho que sou um eterno otimista. Como disse, ano passado tive a oportunidade de fazer estes 20 shows pelo PAC (Programa de Incentivo à Cultura de SP) e tivemos a oportunidade de tocar em várias pequenas cidades e tudo com lotação máxima de teatro, com grande sucesso de público e com eles interagindo com o grupo. Muitos chegavam até nós no fim e diziam: ”nunca tinha visto um show deste!”.  Então a conclusão é: Tem público, só precisa ser bem divulgado e bem produzido que vai dar certo. O mais importante que eu prezo no meu som, é não fazer um som só pra músico, só com virtuosismo e improvisação sem fim. Não é porque é música instrumental tem que quebrar o tempo inteiro. Tem que ser agradável pra todo mundo, e este objetivo, pelas criticas que tenho recebido, estou alcançando. Acho que este é o maior problema da música instrumental músicos querendo fazer música só para músicos. Aí fica difícil alcançar um público maior.

 

Site Batera: O que você acha que poderia ser feito para melhorar a cultura musical no Brasil? Tanto do lado dos músicos quanto dos ouvintes.

Alexandre Cunha: Bom dos músicos e professores, não se limitar apenas em fazer o “feijão com arroz”. É lógico que às vezes precisa para ganhar dinheiro e tudo mais, mas acho que o músico e principalmente os professores tem que agir também como um mestre que mostra o caminho para boa música, para o aprimoramento do instrumento etc. Colocar de forma sutil e aberta sua opinião e gosto musical para influenciar os alunos aos mais diferentes tipos de música. Os ouvintes têm que primeiro querer pesquisar, estar de cabeça aberta e se influenciar por outros tipos de música que não as comerciais e as que tocam na Novela. Hoje tudo esta na Internet, é muito fácil ouvir qualquer artista ou música, mas ainda acho que o boca a boca é a melhor propaganda para alcançar uma boa música, sempre confiando no conselho de um professor/músico para abrir a cabeça e conhecer sons diferentes.

 

Site Batera: Essa última não é uma pergunta. É um espaço livre para você dar uma opinião ou expor algum assunto que não foi citado acima e você acha que não pode ficar de fora desse nosso bate papo.

Alexandre Cunha: O mais importante na vida é você fazer o que gosta, ter o máximo de prazer no seu trabalho. Quando estou fazendo meus shows e tudo ta rolando, tocando com ótimos músicos e meus amigos, a sensação que vem é que tudo está certo e que tudo que fiz e estudei até este momento valeu a pena. Várias vezes e em vários shows, como também na época do Brazilian Duet, tive este sentimento de dever cumprido. Graças a Deus, pude já deixar registrado meu trabalho com 2 CDs e 3 DVDs, sobre todos meus estudos e feeling na bateria e quando você viaja para um lugar longe (estive no meio do ano no festival de Garanhus) e um baterista do interior de Pernambuco diz que é seu fã e conhece seu material, é muito gratificante. Batalhem pelos seus sonhos, mesmo que muitas pessoas digam que isso não vale a pena ou que não vai dar dinheiro. Você só tem uma vida e tem que se sentir realizado em algum momento dela!

 

Fonte: Site BATERA

Victor Slave

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